Sobrancelhas postiças

Ver PDF | Ver Impressão
por: sergiomartinsuk Total leituras: 364 Nº de Palavras: 2162 Data: Sat, 20 Aug 2011 Hora: 6:35 AM 0 comentários

Londres é uma cidade cosmopolita, onde vivem diversas nacionalidades  de diferentes culturas, com seus respectivos costumes, religiões e línguas, e por falar em língua, a cidade e uma verdadeira torre de babel. Saber distinguir entre os imigrantes, principalmente os brasileiros, aos quais Migrantino tinha mais contato, quem falava ou não inglês era uma tarefa difícil, pois existiam várias categorias que se dividiam entre: “os que falavam mas não entendiam quando ouviam”. “Os que entendiam, porém não falavam”. “Os que falavam e entendiam, mas em compensação não escreviam, só liam”. “Os que falavam e entendiam, por outro lado não liam , só escreviam”. “Os que falavam e entendiam apesar de não lerem nem escreverem”. “Os que não falavam, não entendiam, não liam e muito menos escreviam” (Migrantino não sabia como esta última categoria conseguia sobreviver na cidade). E finalmente apesar de raro, vinha “Os que falavam, entendiam, liam e escreviam. Mas estes tinham o hábito de conversarem pouco. Por incrível que pudesse parecer, ele foi percebendo que os que mais falavam, eram os que menos sabiam. Notara assim, que as pessoas, as vezes, por falta de humildade de admitirem suas inabilidades, sem perceberem, acabavam usando suas próprias bocas para expressarem suas ignorâncias. (Notara que esse comportamento parecia se estender por todas as áreas da vida humana).

Certa vez em um ponto de ônibus ele sentou ao lado de duas jovens brasileiras e uma delas estava falando ao celular e ele pôde escutar o diálogo, se este pudesse ser chamado assim, pois dos quase 10 minutos que se passaram só se pôde ouvir algumas palavras como: 36 “ok`s”, 57 “yes”, 9 “no`s” 1 “all right”, 15 “of course`s”. Assim que ela terminou a ligação, sua amiga ao lado que por sinal acabara de chegar do Brasil lhe disse: “ Menina!!, não sabia que você falava inglês tão bem assim”!!!

As pessoas se sentem a vontade nas ruas, já que podem vestirem e se comportarem da maneira que quiserem. O que em certos países seria restringido ou até proibido, em Londres era permitido. E isto lhes proporcionava uma certa sensação de “liberdade”. No caso dos imigrantes em geral, que na sua grande maioria vinham de cidades do interior de seus países, onde eram controlados pelos pais, parentes e principalmente vizinhos, quando alí chegavam pareciam terem recebido no aeroporto uma permissão especial: “podiam fazer o que bem entendessem, pois afinal de contas agora seriam donos de seus próprios narizes” e não teriam a presença de ninguém que lhes pudesse censurar ou lhes proibirem de alguma forma. Isso logicamente era válido para ambos os sexos e todas as nacionalidades e raças. Com esse tipo de comportamento dos novos moradores que alí chegavam, a cidade iria se tornando como um grande calderão de sopa de legumes, sendo alimentada com os mais diversos ingredientes, formando uma mistura gingatesca, em contínuo fervor, onde a continuar esse frenesi, vai se tornando impossível a qualquer um distinguir as cenouras das batatas.

São tantos comportamentos diferentes, modo de vestir, cortes e cores de cabelos, cada qual mais exótico que outro, que  as vezes ele se sentia que acabara de aterrissar em um outro planeta. Via cada figura nas ruas que se tornava difícil acreditar que se estivesse realmente no planeta terra. Era normal que a fisionomia das pessoas de diferentes países e regiões diferissem uma das outras, mas se se juntasse a isso: hábitos e costumes, modo de vestir e cortes de cabelos que ele nunca imaginara ver, não seria muito difícil de se convencer que finalmente os marcianos estariam se infiltrando no planeta. Um dia Migrantino fora em uma festa, convidado pelos seus colegas de trabalho. Nesta época nao falava quase nada em inglês e se limitava a observar os convidados.

Estava presente mais ou menos umas cento e cinquenta pessoas de nacionalidades diferentes e ele nunca vira em toda sua vida uma festa tão estranha. Não só pelas diferenças entre as pessoas e diversas línguas sendo faladas, mas tambem pelas vestes totalmente fora do padrão, como rapazes e garotas usando calças abaixo das coxas. Ele vira no brasil alguns usarem abaixo um pouco da cintura, mas estas estavam quase na altura dos joelhos. Não sabiam como eles conseguiam andar daquele jeito. Pareciam que acabaram de sair do banheiro e preocupados em retornar a festa, se esqueceram de levantá-las. Cortes dos mais estranhos que se possa imaginar e as mulheres com cabelos de todas as cores do arco iris, e que brilhavam a exposição à luz. Ele lembrara de ter visto um rapaz e ficara perplexo. Usava piercings ao longo dos dois lábios de um lado ao outro. Outra carreira nas duas sobrancelhas e quando dava uma gargalhada, podia notar mais uns quatro em sua língua já esverdeada, tingida por um tipo de bebida que, vez por outra bebericava. Parecia que acabara de sair de uma seção de tortura, com metal por todo o corpo. O único local onde não tinha brinco nele era nas orelhas (pois seria óbvio demais).

Bebidas exóticas eram oferecida aos convidados, pareciam mais com poções mágicas com suas fumaças a subir pelo teto, com as mais variadas cores e texturas, sendo servida em recipientes estranhos. Em um dos cômodos da casa presenciara uma turma de uns cinco rapazes armando alguma coisa. Parecia bem complicada, cheia de canos metálicos, com funis e garrafas espalhados ao longo da estrutura. Mais tarde descobriria que aquele instrumento serviria como recipiente para uma bebida que seria consumida coletivamente quando a festa atingisse seu ponto máximo.

Havia também garçons desfilando com suas bandejas cheias de bebidas ou algo parecido, e objetos para serem consumidos e/ou usados. Mas Migrantino não sentia ainda seguro para aceitar, pois ao olhar a bandeja, não conseguia distinguir bem a função de cada um. Não sabia se era para beber, comer, cheirar, fumar, passar nos cabelos ou simplesmente pendurar no pescoço, ou até mesmo nenhuma das opções anteriores. Como nao queria fazer feio, optou por nao arriscar. Ele já estava ficando com sêde e pensava em pedir algo para beber, mas hesitava no que escolher.Não queria passar por careta pedindo: uisque, vodca , vinho ou muito menos cerveja (água estava totalmente fora de cogitação). Mas também não queria se arriscar naquelas bebidas que não conhecia.

As pessoas que via nas ruas não diferiam muito daquelas da festa. Quando pegava o metrô sempre ficava observando-as em suas excentricidades, até que um dia viu algo que não era muito comum. Parecia tudo normal até aquele momento. Só se via o banal como: homens se beijando; mulheres abraçadas trocando carícias; jovens e ate adultos com as calças abaixadas à altura dos joelhos, com correntes e metais por todo o corpo; pessoas com seus ipods nos ouvidos, dançando e cantando sozinhas; ingleses sentados, lendo seus jornais ( de vez em quando balançavam suas cabeças diante de certas notícias escandalosas). A única cena que fugia ao padrão era um casal heterossexual que estava sentado em um canto do vagão. Meio tímidos e acuados, sob os olhares assustados dos demais. (afinal de contas, nem tudo era perfeito). Enfim, tudo absolutamente normal. De repente entra uma mulher e senta logo a frente de Migrantino e ele passa o olhar por ela. Instintivamente volta seu rosto novamente ao dela, desta vez um pouco surpreso. Nota alguma coisa errada nela, mas não sabia exatamente o que era e muito menos onde.

Parecia se localizar no seu rosto; em sua fisionomia. Olhava-a discretamente pra tentar descobrir, mas não tinha a mínima idéia do que poderia estar diferente. Tinha certeza que não se tratava de  um rosto normal. Havia alguma coisa sobrando ou faltando. Para se certificar, ele comparava seu rosto com outros rostos vizinhos ao dela. Como naquele jogo dos sete erros, onde não se consegue notar as diferenças mais evidentes. Ele tentava, já angustiado, pois seu tempo estava acabando. Iria descer em mais duas ou três estações e precisava desvendar aquele mistério.

Quando ainda estava concentrado no rosto dela, passa um casal com um filho de mais ou menos 3 anos. Os três trajando um corte de cabelo tipo soldado romano que ele achou super engraçado, mas naquela hora não poderia desviar sua atenção. Estava diante de uma cena totalmente desafiadora. Precisava descobrir o que estava errado no rosto daquela mulher de cabelo vermelho com mechas verde limão, e não dispunha de muito tempo. Resolveu apelar para o método da eliminação, ou seja, descartar o que estava certo até chegar onde estava o erro. Começou pelo queixo: conferia. Boca e lábios: conferiam. Nariz: conferia. Olhos: conferiam. Sílios: apesar de postiços que mais pareciam um par de toldos, mas conferiam.

Estava acabando seu tempo e o rosto dela. Não tinha notado nada de errado ainda, até que analisando o que sobrava, ou seja, as sobrancelhas e a testa, resolveu concentrar ai sua atenção. Notou uma pequena desproporção de espaço entre a testa e as sobrancelhas e finalmente pôde ver onde estava o erro: Ela tinha raspado a sobrancelha natural e pintado uma artificial. Dava pra notar que era um risco de um lápis feito a mão. Não sabia se de propósito ou não, ela foi pintada um pouco mais acima lhe dando uma aparência estranha. “Talvez ela acabara de sair do salão de beleza e na correria, o cabeleileiro pintou as sobrancelas fora dos lugares e nem ela notou o erro”, coitada!!! pensava ele, “poderia estar indo a um casamento e não haveria tempo nem de olhar em um espelho, sabia que os ingleses viviam correndo, talvez pior, poderia ser a noiva, se fosse, poderia até ser recusada pelo futuro marido como sendo uma impostora, ja pensou! Que tragédia!. Ou talvez seria uma nova moda que estava apenas iniciando e que Tino ainda iria ver muitas sobrancelhas raspadas e pintadas em lugares nunca antes imaginado”.

 

Sobre o Autor

Sérgio Martins




Pontuação: Não pontuado ainda


Comments

No comments posted.

Add Comment