O cachorro infeliz

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por: sergiomartinsuk Total leituras: 317 Nº de Palavras: 4931 Data: Sat, 20 Aug 2011 Hora: 6:33 AM 0 comentários

Passados quatro meses de sua chegada em Londres, Migrantino acabara de se mudar para uma nova casa, ou melhor para sua terceira nova casa. Mais tarde acabaria por tirar o adjetivo “nova”, pois se tornaria uma redundância. Como mudar se tornaria uma rotina, logo, toda casa seria “nova”. Uma das características dos imigrantes em Londres, pelo menos os brasileiros, eram mudanças frequentes de residência e emprego. Ele lembra uma certa noite, quando estava em seu quarto dormindo. Era mais ou menos 3 horas da madrugada, quando repentinamente alguém abre a porta de seu quarto e entra. Ainda no escuro, pois a luz estava queimada, ele ouve uma voz masculina já perto dele: “uffa!! meu bem, até que enfim chegamos!!”. Assustado, Migrantino dá um grito no escuro: “tem gente!”. O casal surpreso, responde: “desculpe, acho que entramos no quarto errado”. Ainda bem que ele acordou, caso contrário, não era bom nem imaginar o que poderia ter acontecido. Mas o que mais lhe intrigou foi o fato de alguém se mudar às 3 horas da madrugada. (só em Londres mesmo!!). Ninguém sabia como explicar este hábito. Mas na verdade, era melhor se acostumar do que tentar achar respostas, e ele, particularmente já tinha perguntas demais em sua cabeça.

Esta sua nova residência era relativamente longe do centro da cidade. Localizada na zona quatro, o que era inconcebível a qualquer brasileiro, já que a grande maioria deles tinha deixado o país para “fazer dinheiro”, como costumavam dizer (apesar de  não terem a mínima idéia do que fazer dele depois). Morar o mais perto possível do trabalho, que se localizava quase sempre na região central, era de extrema importância.

A maratona não era muito fácil, afinal de contas, tinha de percorrer 16 estações de metrô, sendo quatro underground (subterrânea) e 12 overground (superficial), e mais um ônibus até conseguir chegar perto de sua casa. Caminhando mais uns dez minutos, se o tempo estivesse bom, ele finalmente chegaria ao seu destino. Cumprida a missão, poderia relaxar um pouco, desde que nao pensasse que teria de repetir tudo no dia seguinte, ou seja, dalí a poucas horas. Um dos argumentos que às vezes ouvia sempre para encorajá-lo que não era tão ruim assim morar longe,  pois poderia aproveitar a viagem para ler livros, ou fazer alguma atividade durante o trajeto. Mas ele particularmente não tinha dúvidas disso e ia até mais além. Poderia não só lê-los, como também escreve-los; fazer cursos, ou quem sabe, uma faculdade por correspondência, ou até mesmo, uma  descoberta revolucionária que pudesse mudar o futuro da humanidade. Provar a teoria da relatividade de Einstein. Afinal de contas tempo para isso não lhe ia faltar.

Como se tratava de um casal de antigos amigos que conhecera em sua primeira estadia na capital inglesa, optou por um ambiente mais tranquilo , onde, se conseguisse chegar, teria um clima mais familiar. Era um casal alegre, ambos na faixa dos 30 anos e sem filhos, tinham apenas um gato como animal de estimação. Vez por outra reclamavam do paradeiro da casa. Precisavam de mais ação. Algo que pudesse animar, agitar aquele ambiente. Suas vidas estavam assustadoramente muito tranquilas. Como Migrantino aprendera a observar o comportamento das pessoas, pensava com seus botões: “Estranho, uma das razões de todas as mudanças era justamente o barulho, festas, agitações que faziam com que trocassem de casa, e aquele casal reclamava por estar tudo tranquilo”. Não queria nem cogitar sobre isso que já lhe dava arrepios, mas será que chegaria a esta conclusão também? Sentiria saudades das moradias anteriores?

Eles queriam algo que trouxesse mais movimento aquela casa, quem sabe até problemas, no fundo ele sabia que o ser humano  não conseguia viver sem problemas. E se depedensse daquele gato, as coisas não iam mudar, pois quase não se notava sua presença na casa, a nao ser para comer e beber, e de vez em quando lhe passar alguns sustos pela madrugada. Parecia mais um fantasma. Não demorou muito a decidirem a adquirir um problema, ou melhor, um cachorro. Depois de muito ponderar (dez minutos), resolveram que teriam um, a questão agora era saber a raça. Como não tinham experiência com esta espécime, recorreram então a internet.

Passadas horas procurando, ela teve uma idéia: já sei, bradou, como não tinha pensado nisso antes? Nao lembra? Daquele filme?. (quando se relacionava cachorro com filme , sempre lhe vinha à memória o filme “Beethoven”, apesar que no fundo, como ele era de outra geração, pensou logo no “Rim tim tim”). Conclusão: seria um São Bernardo sem sombra de dúvidas. Não havia visto nenhum no Brasil, só os conhecia pela televisão. Geralmente com skiadores nos gelados alpes suiços que eram bem grandes, e portavam aqueles barris de uisque pendurados em seus pescoços e sabia que na fase adulta alguns chegavam a pesar mais de 90 kilos. Achava aquela escolha um pouca exagerada para quem ia ter sua primeira experiência com caninos.

Não poderiam imaginar como era ao vivo. Na inglaterra quase ninguém tem cães desta raça!, argumentava ela, mas Migrantino , enquanto ela ainda falava, pensava sem se manifestar, “Se na inglaterra quase nao se vê São Bernardos, alguma razão deve existir”. Como um bom mineiro, evitava dar opiniões, principalmente em situações delicadas como aquela. Não queria ser uma espécie de cúmplice, caso surgisse algum arrependimento ou possíveis transtornos. Mas no fundo ele achava estranho a idéia. Se ninguém tem um cachorro deste na inglaterra, deve haver algum inconveniente, ou ela teria descoberto a causa da frieza e infelicidade dos britânicos: “nao tinham um São Bernardo em suas casas”¬ mas, é claro, preferia ficar com a primeira opção. Estavam num continente com uma civilização que vem de desenvolvendo há milhares de anos, deveriam saber muito bem, por experiência própria, que não deveriam ter São Bernardos em casas com espaços reduzidos como em Londres. E ele já havia notado em suas andanças que os ingleses levavam cachorros a sério, com status de cidadão. Portanto sem ter uma noção exata do que estavam fazendo, adentravam em um terreno delicado, apesar de ser um costume muito comum no Brasil.

Para comecar a se adaptar a nova fase que viria, assitiram algumas vezes o filme “beethoven” para se familializarem mais com seu futuro cachorro e tirar algumas dúvidas que não tinham. Ficaram fascinados e certos de que não poderiam ter feito melhor escolha. Se esquecendo que se tratava simplesmente de um filme. Não demorou muito tempo e lá se foram buscar o filhote num canil no sul da Inglaterra.

Como ainda tinha pouco mais de dois meses de vida, parecia feito de pelúcia, mas seu tamanho e forma já davam pequenos indícios de sua futura estatura. Eles no entanto, ignorando seu crescimento, estavam eufóricos com o novo membro da família. Não entendiam como teriam sobrevivido sem um cachorro daquele. Mas Migrantino, não querendo ser pessimista soltava suas opiniões silenciosas: “O problema é que ele vai crescer” e como! Com dois meses estava com algumas centenas de grama, segundo o veterinário , em um ano e pouco estaria com quase 90 kilos, teria o peso de um ser humano relativamente obeso. Portanto ele só não ia crescer, como ja estava crescendo. O processo já estava em andamento. Se eles quisessem curtir sua fase de crescimento teriam de ficar literalmente ao lado dele, nao só vendo, mas assistindo seu crescimento. Não teriam tempo a perder, era visível a olho nu. Parecia que a cada dia ganhava um kilo. O gato já começara a perder espaço. Tony, como era seu nome, já transitava pela casa marcando território, não deixando nenhuma dúvida de quem era o novo dono da casa, inclusive nos dominios do gato. Usando sua portinha para entrar e sair quando quisesse, e sempre beliscando suas comidas, não porque gostava de comidas de gatos, mas para dar provas de seu poder.

Como crescia a cada minuto, era óbvio que as vezes ficava emperrado na pequena porta destinada anteriormente ao acesso do gato. Apesar de não oferecer nenhuma ameaça fatal para o bichano, pois São Bernardos não são cães agressivos, mas o pantera como era chamado o gato, sabia muito bem das rivalidades entre as espécies e não queria se arriscar. Talvez nem tanto por causa de alguma possível agressão , mas pra evitar suas lambidas, que com certeza ele trocaria por uma bela mordida, desde que fosse bem sêca. Sempre quando era pêgo numa emboscada ficava horas  se secando de suas lambidas.

Ao passar alguns meses, tony nao poderia mais ficar em casa, por motivos óbvios. Como já estava acostumado a transitar e dormir dentro de casa, era normal e até esperada sua resistência em ir para o quintal. E aí era o ponto inicial dos problemas que viriam. Seria nescessário uma casinha, se e que aquele seria o termo adequado. Não demorou muito e Migrantino foi designado para montar a tal casinha pra cachorros, que seria comprada numa loja virtual. Chegada a casinha,  começara logo seu trabalho de montagem. Em sua experiência com montagens, sabia muito bem que não poderia cair na tentação de ler o manual, pois se o fizesse, jamais consegueria montá-la. Preferindo usar sua intuição para fazer o serviço. Era só imaginar uma casinha e ir separandos as peças. Apesar destas não se parecerem nem um pouco que pertenciam a mesma.

Como estava desempregado, passava muito tempo com tony e as vezes ficava olhando-o, admirando como poderia ser tão grande e pesado. Uma vez lhe dera uma pisada. A marca da sua pata ficou em seu pé algum tempo, poderia relhembrar a dor que sentira. Tivera a sensação de ter sido pisado por um bezerro, e com o frio a dor era multiplicada por mil, e o pior e que não pôde fazer nada, pois a dona estava bem próxima. Começava a compará-lo com os cachorros brasileiros. Como era diferente daqueles que havia tido ou conhecido no Brasil. Alguma coisa falava dentro dele: “É um cachorro de primeiro mundo”. Quando chegara em Londres, trouxera consigo um complexo de inferioridade, por vir de um país considerado de terceiro mundo e ainda com o agravante de estar ilegal.

Considerava todas as pessoas “legais”, superiores a ele, pricipalmente se fossem inglesas. O medo de ser apanhado, frequentemente lhe rondava a mente . Enquanto refletia, o cachorro não se intimidava e retribuia o olhar, com os olhos fixos nos dele. Pensamentos vinha-lhe a mente: “estranho, este cachorro tem uma expressão  quase humana”, era tão notório, que tinha a impressão que ele lia seus pensamentos ou que queria dizer-lhe alguma coisa. E pela sua seriedade não era nada banal. Nenhuma fofoca, era algo sério. Talvez um grande segrêdo. Bom, ele preferia parar de pensar nisso e não olhar muito pro cachorro, e principalmente não subestimá-lo. Ainal de contas ele não era qualquer cachorro. Tinha até um passaporte inglês. E se ele resolvesse mesmo falar, logicamente seria em sua lingua mãe. Poderia até questionar sua legalidade no país, o que o deixaria mais desconcertado e complexado ainda.

Depois de montar, desmontar, colocar peças invertidas e tirá-las novamente, finalmente ele dá as últimas marteladas sob o olhar de tony. Achava estranho, pois o cachorro olhava pra ele e depois pra casinha e novamente pra ele. Como estava quase chegando a conclusão que aquele animal pensava, estaria provavelmente se perguntando: “Para quem será esta casinha?”. Pra falar a verdade ele não estaria de todo errado, dado que a casinha era praticamente do tamanho dele, apesar de ser o tamanho maior que existia na loja e no mundo.

Com muito esforço, arrastou-a pra um canto do quintal um pouco afastado da casa, onde achou um lugar mais adequado. Bom pensava, “fiz minha obrigação. A casinha está montada. Não sou eu quem vai dar a notícia pra ele”, e arriscou olhar para tony, querendo de certa maneria sua opinião. Ele continuava imóvel sentado no mesmo lugar dentro de casa. Só com a cabeça pra fora da porta, pois achava um absurdo ir ao quintal, só o fazendo quando de extrema nescessidade. Arriscou chamá-lo até sua nova casa pra ver sua reação, o que ele atendeu, mas o fêz mais por educação do que interesse, afinal de contas era um cachorro inglês.

Resolveu deixá-lo a sós com sua nova residência, talvez ele estaria um pouco tÍmido ainda, e foi até o banheiro lavar as mãos e dar um tempo pra ver a reação de tony. Ao voltar, so pôde assistir as últimas mordidas dadas na suas partes de madeira, que mais pareciam feitas de isopor, que ele já tinha quebrado com suas patas. A única peça que conseguiu resgatar intacta, foi a cortina de plástico que serviria para a porta de entrada, conseguindo puxá-la de sua boca. Com isto ele deixou bem claro que não era cachorro de “casinhas”.

Depois de muitas tentativas sem sucesso em convecê-lo que não poderia dividir o mesmo espaço que os moradores da casa, resolveram forçá-lo a ficar de fora. Esperando que com o tempo ele se acostumasse, como acontecia sempre com os cachorros brasileiros. Mas ele não era brasileiro e isto descobririam mais tarde, iria fazer uma enorme diferença. Ficava latindo e dando patatas no vidro da porta, querendo de toda maneira entrar para dentro da casa, e eles resistindo as suas investidas, fingindo não notarem seus apêlos. Mas ele não se conformava que teria de ficar no quintal. Parecia que conhecia seus direitos. Nao demorou muito, e numa manhã, quando estavam reunidos tomando o café, a campanhia toca, e o marido vai atender a porta. Não deixou de ficar surprêso com a visita inesperada e muito rara. Pois se tratava do vizinho do lado, que eles mal conheciam e muito menos se falavam, no máximo uns cumprimentos formais quando se viam, discreção era uma das principais características dos ingleses. detestam escândalos de qualquer espécie. Para se ter uma vaga idéia, por exemplo: se estiverem sentados no metrô e por acaso entrar um elefante e sentasse ao seus lados, no máximo eles virariam a cabeça discretamente para dar uma olhadinha. Provavelmente voltariam a cabeça e continuariam a lerem seus jornais e se comportariam como se tudo estivesse normal. Poderiam no máximo chegarem a conclusão: “interessante, tem um elefante sentado ao meu lado”.

Este vizinho era tipicamente destes, e não faria muito sentido aquela visita. Não fosse é claro, que se tratasse do cachorro. Assunto que ele logo evidenciou. Estava preocupado com o tony. O marido curioso, lhe indagou qual seria o motivo de sua preocupação e ele logo declarou: “seu cachorro esta latindo”. Ao ouvirem esta afirmativa aparentemente óbvia, ficaram todos ao redor dele sem saber o que responderem. Apenas olhando um para o outro, confusos. Nunca tinham ouvido esta advertência antes. Depois de trocarem olhares por um tempo, o marido arriscou a responder: “mas cachorros costumam latir”, é normal!, pelo menos achamos isso!, Migrantino, sempre sem se manisfestar, pensa consigo: “ ele tem razão, se o cachorro estivesse cacarejando, relinchando, coachando, seria realmente estranho. Mas afinal de contas, ele estava latindo e era um cachorro, parecia perfeitamente normal!

Mas o vizinho logo retrucou: “estão enganados”, e com a experiência de quem ja tivera vários cachorros, disparou logo seu diagnóstico: “seu cahorro está infeliz”. Mal tinham assimilado a primeira afirmação e logo veio esta como uma bomba: não sabiam mais como responder a esta última. Era demais, “cachorro infeliz”, mas o que significava aquilo? Nem sabiam que cachorros tinham manifestações emocionais. Um sentimento de culpa e remorso começava aos poucos a lhes rodear, foram tomando consciência de que cachorros naquele país eram bem diferentes dos brasileiros. Talvez seria normal eles latirem no Brasil, mas na inglaterra não. Caso contrário seria uma manifestação de infelicidade pelo que ouvira de seu experiente vizinho.

Realmente Migrantino nunca ouvira latidos durante o tempo de sua estadia em Londres. Podia parecer estranho mas os cachorros ingleses realmente nao latiam. Quando o faziam era puramente por obrigção. Para não  se esquecerem de suas origens. Mas ele achava isso um exagero, afinal era do instinto canino o ato de latir, quase uma necessidade. Talvez eles nao estivessem sendo testado adequadamente. Realmente já tivera presenciado várias cenas com cachorros sentados estáticos nas calçadas. Esperando pacientemente seus donos fazerem suas compras, assistindo carros, motos e até carteiros. Outros cachorros passando a um dedo deles, gatos desfilando e os encarando, e eles paradões como estátuas, sem esboçarem nenhum tipo de reação. Mas pensava: “Com certeza eles não resistiriam a uma carroça”. A visão de um homem de chapéu montado em uma espécie de caixa e dando chicotadas em um animal que corria logo a sua frente quebraria seus silêncios até então preservados por várias gerações, seria demais para eles. Sabia que os cachorros brasileiros quase enloqueciam diante de tal cena. Chegando a ficarem roucos de tanto latirem. (Mas o que  até hoje ele não conseguira descobrir, era se os cachorros latiam defendendo os cavalos ou incentivando os carroceiros). Mas como alí não tinha carroças, por sorte deles, restrigiam suas latidas ao essencial.

O marido, preocupado com o diagnóstico que acabara de ouvir, levou o vizinho pra ver tony, e de certa maneira mostrar-lhe que aparentemente não havia nada de errado com ele, a não ser as latidas que dava em contestação a sua nova situação. Enquanto conversavam, tony os olhava, sentado entre os dois, olhando pra cima e  girando sua cabeca ora pra um e ora pra outro, como se estivesse entendendo a conversa. Parecia esperar sua vez de se pronunciar, pois sabia que era a seu respeito. No fundo ele conhecia seus direitos e faria qualquer coisa pra fazê-los valer. Naquela altura já pecebera que caíra numa familia de inexperientes imigrantes e que o vizinho era seu conterrâneo e defensor. Qualquer insatisfação era só dar duas ou três latidas por cima do muro e seu novo herói estaria na porta pra defendê-lo das garras de imigrantes inexcrupulosos. Sem sombras de dúvidas havia ganhado a peleja. Cachorros infelizes era considerado ofensa grave aos animais pela lei britânica, sujeita a perda do animal e ainda a uma pesada multa e em certos casos até prisão.

A situação já estava caminhando para o total descontrole. Não havia escolha, não poderiam deixá-lo mais no quintal. Teriam de pensar numa saida, quem sabe  até ceder. Mas não sabiam exatamente o que fazer. Tony estava completamente fora de controle. Não tivera nehuma espécie de adestramento, portando não respeitava nada, nenhum comando, por mais básico que fosse. Os poucos comandos que ouvia eram dados em dois idiomas alternados, o que o deixara mais confuso ainda. Agora quem comandava era ele, e o pior, sabia disso. Haviam se transformado uma espécie de refén do cachorro. Não adiantaria pensar naquela hora, resolveram deixá-lo na cozinha naquela noite até decidirem o que fariam.

Como em quase todas as noites, pensamentos passavam pela sua mente de Migrantino, e o ocorrido naquele dia,  lhe marcara profundamente. Nunca tivera ainda presenciado uma cena tão inusitada quanto aquela e nem imaginava que cachorros pudessem ser infelizes. Será que os ingleses estariam certos? Latir seria um sinal de infelicidade? Se isso fosse verdade, como eram infelizes os cachorros brasileiros. Pensava em todos os cachorros de sua vizinhança quando ainda morava no Brasil. Especialmente aquele de seu vizinho da direita. Coitado!!, latia por horas a fio, durante toda a madrugada, talvez lhe tivesse comunicando sua infelicidade, e ele como seu vizinho mais próximo, tinha a obrigação de fazer alguma coisa, como sofria. E ele simplesmente o ouvia e se virava pro lado e continuava a dormir, certo de que se tratava apenas de um cachorro latindo, ignorando a dor emocional do pobre animal.

Mas ele não queria ter nenhum sentimento de culpa. Afinal não podia fazer nada, imagina, se sensibilizado com a situação do cachorro, levantasse aquela hora da madrugada e fosse até seu vizinho, que tinha um apelido nada sugestivo. Na rua lhe referiam como “Joao ignorante”. Era um homem bem rude e muito bruto, que tinha matado a própria mulher à facadas. Ele estava em liberdade condicional depois de ter cumprido vinte anos da pena, ja imaginou? se ele, sensibilizado com a situação do animal, batesse em sua porta as três e meia da madrugada e simplesmente lhe fizesse esta afirmacao?: “seu cachorro está latindo, e por sinal ele deve estar muito infeliz!”. Não poderia nem imaginar a reação daquele toglodita. Seria uma tragédia sem precedentes. Com certeza ele voltaria com gôsto pra prisão. Não só ele não resolveria o problema do cachorro, como também, caso sobrevivesse, provavelmente seria mais um infeliz.

Bom é melhor eu tentar esquecer isso, afinal de contas o cachorro nao  me pertence e eu já tenho problemas demais, e este não é meu, tentando se esquivar. Mas uma sugestão, ou um pensamento, ou uma voz, apesar de inaudível,  lhe vinha a mente (ele daria tudo pra descobrir de onde vinha esta sugestão que quase sempre o amedrontava): “Este problema de certa maneira tem a ver com você também. Pense bem: “você é ilegal”. Ele querendo se defender, argumentava: o que tem uma situação a ver com outra? “Pense direitinho”, continuava a voz: Você é ilegal e o cachorro está infeliz. Imagine se eles perdem o controle da situação, culminando numa denúncia por parte do vizinho! Fatalmente viria a sociedade de defesa dos animais averiguar o caso. Pediria nome e documentação de todos os moradores da casa, consequentemente iriam descobrir sua verdadeira situação. De repente, ele abre os olhos. Uma sensação estranha começa a lhe tomar conta, o coração já batia mais rápido e suores vinham-lhe ao rosto. Os pensamentos passando em sua mente como num filme. Já imaginava aquelas viaturas inglesas com homens uniformizados munidos de pranchetas e canetas na porta da casa. Vizinhos olhando e cochichando, fazendo conjecturas a respeito do ocorrido. Ele sendo levado pela imigração para ser deportado e o cachorro sendo conduzido para uma espécie de clínica de recuperação para cachorros traumatizados.

Ao pegar o metrô, sempre via nos jornais sensacionalistas sobre escândalos (ele pensava que este tipo de jornal era coisa de brasileiros), e imaginanava uma manchete estampada com letras garrafais: “ATRAVÉS DE DENÚNCIA, POLÍCIA É CHAMADA EM UMA CASA NO SUL DE LONDRES E ENCONTRA UM “CACHORRO INFELIZ E UM IMIGRANTE ILEGAL”. Podia até ver a cara das pessoas balançando suas cabeças em um gesto de desaprovação e indignação. (como se não tivessem feito nada de errado ao longo de suas vidas) .

Mas para seu alivio no dia seguinte, tomaram uma decisão, ja não tinham a menor dúvida, o tony ficaria com a sala só pra ele, afinal de contas ele merecia ser feliz. Migrantino enfim podia  respirar mais aliviado. Olhando tony conclui: é melhor eu me dedicar ao máximo para que este cachorro seja feliz, pelo menos enquanto eu estiver aqui.

Sobre o Autor

Sérgio Martins




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