Alimentando patos

Ver PDF | Ver Impressão
por: sergiomartinsuk Total leituras: 318 Nº de Palavras: 9744 Data: Sat, 20 Aug 2011 Hora: 6:32 AM 0 comentários

Devido a crise econômica que ainda persistia por toda a europa, o desemprego era uma constante na vida de Migrantino. Qualquer coisa que lhe pudesse render o suficiente para pagar o aluguel e suas despesas básicas seria muito bem vinda. Num dia, enquanto conversava com Carlos em um café no centro, onde houvera trabalhado, este lhe informa que ouviu dizer, (não sabia porque, mas as pessoas sempre ouviam dizer, nunca soubera nada em sua fonte). Segundo Carlos, estavam recrutando pessoal para trabalhar em uma fazenda no interior. “Fazenda?” Pergunta ele, já interessado. Sim, parece que não é bem uma fazenda de gado, mas acho que o serviço lá é para alimentar patos, especula Carlos. Interessante, deve ser legal, afinal eu fui criado no inteiror e iria gostar do ambiente, ficar mais pr[oximo da natureza, para falar a verdade não gosto muito de capital.

          Enquanto ainda falava, seu cérebro ja lhe providenciava várias janelas com imagens mostrando-o, numa bela manhã de sol, sentado num banquinho de madeira com uma bacia no colo, jogando milho aos patinhos num grande quintal, rodeado de árvores frutíferas por todos os lados. Passarinhos cantando, e a cada mês seu salário sendo depositado em sua conta bancária. Já cogitava, sileciosamente, que negócio ele abriria no Brasil (nesta época Migrantino era muito teimoso ainda). Parecia já totalmente esquecido do passado. Era regularmente acometido por um tipo de amnésia temporária. Havia se esquecido de suas experiências anteriores e até das histórias recentes que tinha ouvido de Ana sobre imigrantes ilegais que se aventuraram em trabalhar no inteiror e que passaram por situações traumatizantes. Sempre achava que com ele seria diferente, iria ocorrer o esperado (confundia sempre: otimismo com teimosia). Estava decidido. Iria ter uma vida mais simples numa fazenda do interior.

          Ele mesmo já havia passado pela experiência de trabalhar fora de Londres. No sudeste da inglaterra numa praia, onde através de alguém que tinha ouvido dizer que estavam precisando de um ajudante em um restaurante. Ele pegou o telefone de Jonas, nome do responsável e já combinou o dia que pegaria o trem até a cidade. Jonas, ao recebê-lo no restaurante, se apresentou como headchef, para quem não sabe, em todo restaurante, existe “chefs” (é um tipo de cozinheiro que deu certo) e um headchef (chefe do cozinheiro que deu certo), que normalmente comanda uma equipe (que nunca dá certo) composta de 5 ou mais “chefs”. O estranho que ao chegar ao restaurante, notara que havia 3 garçons e Jonas. Não via mais funcionários e arriscou perguntar a Jonas: quem trabalha aqui na cozinha? Jonas responde: só eu, e agora você. E você é o headchef? Sim. Mas onde está os chefs? Pergunta Migrantino inconformado. Na verdade tinha uma mulher que me ajudava, mas ela saiu há 1 ano, diz Jonas. Ele já sentira alguma coisa estranha no ar e pensava: “ele e uma espécie de general que se auto intitulou, como lhe faltava uma tropa, acabara de recrutar um soldado”.

          Era um restaurante de comida italiana, mas tinha como proprietário um polonês e um inglês filho da cidade. Era uma cidadezinha tipicamente ingleza no litoral nordeste da inglaterra, bem parecida com as cidades do interior do brasil. Com uma rua principal e outras ruelas adjacentes. O movimento basicamente girava em torno da rua principal, onde ficava o restaurante no andar térreo e um apartamento em cima onde morava os funcionários. Jonas era jovem ainda, tinha chegado a inglaterra há 5 anos e trabalhava neste restaurante desde então. Como ele notara, os brasileiros que alí chegavam, em sua grande maioria eram jovens, pessoas simples, sem nenhuma experiência de vida, nenhum preparo para se relacionar com as pessoas e muito menos comandar alguém. Este era o problema principal de convivência.

          Estas pessoas quando saíam de suas cidades, geralmente do interior do Brasil central, quase a totalidade delas não experiemntaram nenhuma experiência fora de suas casas quando no Brasil, no máximo, já teriam ido a uma festa de peão de boiadeiro na cidade vizinha num fim de semana. De repente, ouvem alguém dizer que num “tal de Londres” as pessoas ganham muito dinheiro e que se quiserem, elas também podem, e só comprar uma passagem, entrar num avião, e desembarcar no aeroporto. Chegando lá, ouvirá uns homens brancos altos de olhos azuis vestindo ternos, falarem uma língua enrolada, mas que no fim elas acabam entrando. E citam milhares de exemplos de colegas, vizinhos e conhecidos que se deram bem  e mandaram uma montanha de dinheiro para os parentes que lá deixam. Passando assim uma falsa impressão de facilidade, parecendo que o dinheiro alí nascia em árvores.

          Migrantino mesmo  conhecera vários casos, como por exemplo, de um rapaz que trabalhava 20 horas por dia e mandava todo seu rendimento para sua família guardar, até o último centavo. Dizia que seus parentes providenciaram até um placar eletrônico na sala de visitas de sua casa no Brasil, onde registravam cada libra que chegava com as devidas reações da platéia, dignas de um gol em final de decisão de campeonato. Depois de ter trabalhado neste rítmo por mais de 5 anos, ele finalmente resolve voltar para o Brasil, para enfim poder perder o próprio dinheiro sossegado. Mas o que ele não esperava é que sua família já tinha feito o serviço, ou seja, já o tinha perdido por ele. Nao sobrou um só centavo. ( e nem o placar). Tempos depois foi obrigado a retornar e começar tudo de novo. Mas desta vez seria bem diferente, segundo ele, pois agora só mandaria o dinheiro para sua mulher que deixara no Brasil. (as pessoas, como o próprio Migrantino, achavam que da próxima vez as coisas serão sempre diferentes, ainda que continuam  repetindo os mesmo erros).

         Ele começara a perceber que o problema maior das pessoas não era propriamente ganhar dinheiro, isto era reativamente fácil. Mas a grande questão era saber administrá-lo. Era nesta área que concentrava  o grande desafio. Percebia que tivera as mesmas oportunidades de ganhar dinherio em sua vida como todas as pessoas, mas não soubera usá-lo adequadamente. E agora presenciava sua própria incapacidade também em outras pessoas.

          Era como se alguém, de repente ganhasse uma moderna aeronave, mas não tivesse a mínima idéia de como pilotá-la. Em sua ãnsia em tirá-la do solo, fizesse um esforço enorme para decolá-la. Poderia até conseguir, mas seria uma ilusão, pois para mantê-la voando com segurança, efetuando pousos e  novas decolagens frequetemente, exigira muito conhecimento e prática. Apesar de ser um aparelho moderno, inevitavelmente passaria por  turbulências durante os vôos.

          Este mesmo princípio poderia ser aplicado na vida financeira dos seres humanos. Não bastaria só possuir o dinheiro. Seria imprescindível saber como lidar com ele. Era nisto que a grande maioria das pessoas falhavam. Migrantino pensava ser um exímio administrador, bastaria ter a oportunidade de ganhar na loteria por exemplo, ou se dar bem como um empresário ou ter tido uma carreira de sucesso. Mas, tempos depois, perceberia que o grande motivo de seu insucesso financeiro, era não ter sabido lidar com o dinheiro que sempre teve. Isto parecia fazer sentido não só na área financeira, mas também poderia se estender a todas as outras. Talvez a pergunta que ele deveria passar a fazer seria: “Onde eu errei, para que tudo desse errado comigo?” e não: “Porque tudo da sempre errado comigo?

          Ele conhecera homens que procediam literalmente de fazendas, onde trabalhavam sem nunca ter saido de perto da familia. Não tinham a mínima idéia do que significava deixar sua casa, familia e principalmente seu país e se aventurar num país que nem mesmo sabiam falar a língua. Viver na ilegalidade, com a única finalidade de ganhar dinheiro. Isto, somado ao trabalho duro e contínuo, a discriminação, humilhações e as dificuldades de adaptação ao clima, cultura e culinária que são inevitáveis. Esta situação colocaria qualquer ser humano sob intensa pressão.

           Ele conhecera um típico caso, num de seus trabalhos. Conhecera Vera, uma jovem de vinte e seis anos, saíra do noroeste brasileiro, diretamente para Inglaterra. Ignorava totalmente o que era estar na inglaterra, num outro país, com outros costumes, outra cultura. Se sentia em sua cidade quando conversava. Dava escândalos em pleno serviço. Não importando que ao seu redor havia dezenas de ingleses assustados a olhando. Isto porque não entendiam o que ela falava. A cada dez palavras, nove eram palavrões que com certeza seriam proibidos em feiras livres e campos de futebol no Brasil. Às vezes quando a observava em seus gestos, Migrantino tinha o hábito de se perguntar silenciosamente: “Como ela conseguiu passar na imigração? É uma pergunta que talvez nunca seria respondida.

          Nesta nova situação, se o imigrante, seja lá de onde vier não tiver um mínimo de equilíbrio, bom senso e experiência, se comportará como um animal, lutando pela própria sobrevivência. Seguindo único e exclusivamente seus instintos.  Perdendo todo o sentido de humanidade e respeito pelo próximo. Infelizmente era o que ele notava ao observar o comportamento das pessoas. Falavam de todos os assuntos, desde que incluísse cotação do Real perante a libra. Quanto dinehiro já havia guardado. Enfim, suas vidas giravam em torno do lado financeiro, como se isso fosse a única razão pela qual viviam. O importante era ganhar sempre e não importaria se para isso tivessem de passar por cima do outro, ou fazer algo que certamente não fariam se estivessem mais lúcidos.

          As pessoas pareciam se comportarem de outra maneira ao chegarem alí. Adquiriam uma espécie de dupla personalidade. Ou seria que Londres se tornara uma grande máquina de raio “x”. Onde à partir do momento de sua chegada, cada um fosse aos poucos sendo submetido a uma grande radiografia moral  que gradativamente iria se revelando uma personalidade até então reprimida ou desconhecida. Quem sabe adormecida, só esperando um habitat adequado, onde poderia mostrar quem realmente era ou gostaria de ser mas que até então não tivera oportunidade. Migrantino notara que o verdadeiro caráter das pessoas se revelava quase sempre nas adversidades. Era fácil ser bom e amável em situções favoráveis, mas quase impossível se manter calmo e equilibrado quando as coisas vão mal. Quando se sente pressionado, acuado. E aquele ambiente com todas as suas dificuldades se tornaria uma prova de fogo, onde as pessoas inevitavelmente iriam se revelando e expondo suas verdadeiras índoles.

          Notara que principalmente os jovens, se comportavam de maneira diferente de quando moravam em seus países de origem. Talvez devido a repressão que sofreram. Ali julgalvam-se sentir mais “livres”, com comportamentos e linguagens isentos de qualquer autocensura. Não respeitando o ambiente e muito menos as pessoas ao seus redores. Agindo de uma maneira como se quisessem recuperar o tempo perdido. Sem  ter a conciência, que aos poucos eles mesmos estão se perdendo e se depreciando em nome de uma pseudo liberdade. Achavam que bastavam proteger seus corpos com  certos cuidados e preservativos de todas as espécies, mas ignorando que possuem uma alma, e para protegê-la, nenhum tipo de proteção física seria eficiente contra os danos  causados pelos atos impensados. Estavam convencidos que a única atração que podem oferecer para chamar a atenção do mundo e serem aceitos, seriam suas aparências. Exibindo seus corpos cada vez mais transfigurados pela nova moda, em detrimento do que realmente tinha valor.

           Os atritos eram constantes, como os imigrantes brasileiros vinham de diversas partes do Brasil, naturalmente começavam a se dividirem em classes. Era uma mistura de costumes  e sotaques que ora era benéfico, ora causava discussões. Cada classe tinha suas peculiaridades como a discrição dos mineiros. A “malandragem” do carioca. A alegria do baiano. A seriedade dos paulistas e o orgulho dos gaúchos. Esse grande bolo era temperado com ingredientes estrangeiros, procedentes de todos os continentes, principalmente o europeu. Podia parecer esquisito, mas Migrantino notara que os goianos, apesar de pertecerem ao Brasil, conseguiram estar numa classe a parte. Devido a hostilidade que seus compatriotas desenvolveram contra eles. Não se sabia explicar muito bem o motivo desta aversão, mas com o tempo eles foram se tornando maioria ali na cidade e como tal, uma classe a ser combatida e evitada. Os goianos estariam para a Inglaterra, assim como os mineiros estariam para os Estados Unidos.  Ele achava que esta richa era apenas boatos ou exagero, ate que um dia presenciou um rapaz entrar no ônibus com uma frase escrita na frente e nas costas de sua camisa: “Sou goiano e dai? Depois disso, nao teve mais dúvidas.

          Mas para ele o problema não era exatamente de preconceito quanto a região de origem. Até porque costumava dizer que goiano era uma outra versão do mineiro, com uma diferença: o mineiro pensa sem falar e o gioano fala sem pensar, em outras palavras: O goiano fala o que o mineiro pensa. Talvez isso tenha contribuído um pouco para que eles fossem combatidos. Mas Migrantino não tinha mais dúvidas que a raiz do problema estaria no preparo da pessoa em si e não de qual região ela procedia. Poderia vir de qualquer lugar do Brasil ou do mundo. Se tivesse o mínimo de experiência de vida, de personalidade, de valores bem consolidados, seria bem recebido em qualquer parte do planeta.

         Lembrara que ouvira esta afirmação de alguém: “As pessoas que saem do Brasil para ir trabalhar em outro país geralmente são as piores, porque as melhores não tem motivos para sairem de lá”. Ele podia comprovar a veracidade desta frase dita espontaneamante. Mas não usaria o termo “piores”, pois não acreditava em pessoas melhores ou piores. Mas sim, em pessoas preparadas ou não para sairem de suas cidades e ir diretamente para outro país, pois isto provocaria uma mudança muito grande em suas rotinas, com reações imprevisíveis, afetando diretamente quem iria conviver com elas.

          Jonas, o headchef deste restaurante, era tipicamente este tipo de imigrante, que por acaso era goiano. Uma vez ele lhe disse que tinha de decorar todo o cardápio do restaurante. Se assim o fizesse Migrantino poderia se tornar um “chef” em duas semanas, pois ele já estava cansado de ter que trabalhar sozinho por horas a fio e precisava de umas férias. Só que ignorava que não se fazia um chef em duas semanas, ainda que ele decorasse todo o cardápio. Se assim o fosse, aquele cliente que frequentava o restaurante assiduamente poderia muito bem ser um chef, pois com certeza saberia de cor todo o menu. Para aprender a cozinhar ou qualquer outra coisa, seria nescessario um tempo mínimo de prática, lhe dizia Migrantino. Mas Jonas categoricamente afirmava: “eu aprendi assim”. O servi;o dele a princípio era fazer as saladas, o que não era uma tarefa fácil, já que teria que usar diversos pratos diferentes e saladas bem diversificadas para cada prato, com nomes em inglês e italiano. Migrantino mal sabia o português.

          Percebendo sua  própria dificuldade para diferenciar as saladas, ele lhe sugeriu que tirasse uma fotografia de cada salada pronta, pois isso ajudaria na indentificação das mesmas, pelo menos até ele pegar prática, mas a resposta foi a mesma: “Eu aprendi assim”. Quando as pessoas reagiam assim, vinha logo em sua mente a história da experiencia com os macacos, que diz o seguinte:

          “Um grupo de cientista colocou cinco macacos numa jaula. No meio, uma escada, e sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia na escada para pegar as bananas, jogavam um jato de água fria nos macacos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir na escada os outros o pegavam e o enchiam de pancada. Com mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas. Então substituíram um dos macacos por um novo. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada. Dela sendo retirado pelos outros, que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não subia mais a escada. Um segundo foi substituído e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado com entusiasmo na surra ao novato. Um terceiro foi trocado e o mesmo ocorreu. Um quarto e por final o último dos veteranos foi substituído. Os cientistas ficaram entao com um grupo de cinco macacos que mesmo sem tomar um banho frio, continuavam batendo naquele que tentava pegar as bananas. Se fosse possível perguntar a algum deles porque eles batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: “ não sei, mas as coisas sempre foram assim por aqui”.

          Esta resposta que Jonas dava a cada sugestão que ele fazia: “eu aprendi assim” era tipicamente o que esta mensagem da experiência transmite. As pessoas fazem as coisas porque aprederam assim, por que alguém disse que era assim, o chefe disse que era assim, o avo fazia assim, o pai fazia assim, portanto eles continuam fazendo assim. Se recusavam a questionar: porque tinha de ser assim?. Ao invés de combaterem a causa dos problemas, preferiam administrar as consequências, ou pior, aceitá-las, e principalmente culpar alguém por elas. Notava que Jonas sempre reclamava que acabava ficando sozinho, sempre quando entrava alguém, não permanecia muito tempo. E logicamente ele – Migrantino – seria mais um. Isto era a prova do despreparo das pessoas que deixam suas casas, ainda jovens. Muitos já vinham de famílias probelmáticas, pais violentos. Chegando alí, não encontravam situação diferente e talvez até pior. Sendo humilhados e desprezados. Tratados como se fossem uma maáuina ou um número e não como um ser humano, mas como uma mão-de-obra em potencial. Fazendo-os esquecerem que possuiam um cérebro pra pensarem e uma alma pra sentirem. Se tivessem um mínimo de bom senso, poderiam reverter este quadro, se procedendo de maneira diferente daquela que foi ensinado. O sofrimento para eles passou a ser obrigatório, nescessário, e o pior, passado a frente. Não como uma forma de aprendizagem, mas sim de castigo. Ao invés de consertar uma situação errada, quase sempre optavam por perpetuá-la, como se fosse um padrão a ser seguido. Enfim, Migrantino como não concordava com esse tipo de procedimento, resolveu retornar a Londres e depois de ter trabalhado duas semanas sem virar “chef”, evidentemente, não recebeu pelo seu trabalho.

          Depois de mais um tempo fazendo bicos, resolve trabalhar novamente como kitchen porter (um lavador de louças de primeiro mundo), cobrindo a vaga de um funcionário que havia fugido. Após ter pêgo o endereço ele chega até o local. Era um restaurante aparentemente normal (tudo em Londres parece normal, pelo menos aparentemente), que servia pratos típicos de vários países do mundo. Logo ao chegar,  é conduzido por um funcionário até a cozinha que náo tinha mais que uns 20 metros quadrados. Migrantino vê logo dois fogões de seis bocas cada um, com todas as chamas ligadas ao máximo, numa temperatura que beirava os 50 graus e atrás de um deles estava um homem de uns 150 kilos e mais ou menos 1,98 de altura, careca, na parte frontal da cabeça (não dava pra notar se ele raspava ou era de nascença). Uma roda de cabelos na parte de traseira, de onde caía uma  longa trança preta que ia quase até a cintura e os dois braços tatuados com enormes dragões soltando fogo pela boca (como se alí já não tivesse fogo suficiente). Usava uma argola dourada no nariz, que combinava com as duas maiores que pendiam de suas orelhas repletas de piercings.

          Quando Migrantino o fitou, segurava duas frigideiras pretas, feitas de ferro fundido. Em cada uma das mãos, que mais pareciam um par de escavadeiras. As panelas não pesavam menos que 4 kilos cada. Parecia que ainda tinha algo dentro delas, uma espécie de mariscos que ele jogava pra cima levantando quatro labaredas de fogo que davam lambidas no teto da cozinha,  já completamente preto por anos de fumaça. Ele fica hipnotizado por um instante, assistindo a cena. Ainda não tinha nehuma imagem formada do inferno. Mas aquele cenário todo, acrescido com o cheiro característico de óleo e  carne queimada, lhe dava uma boa noção do que seria. (chegou a fazer uma pequena revisão de todos os seus pecados). Aquele homem a sua frente, com certeza seria o headchef, mas parecia mais um personagem saído daquelas revistas em quadrinhos que ele costumava ler, mais precisamente o “Obelix”, amigo inseparável de “Asterix”. Obelix, quando era bebê caiu dentro do calderão de porção mágica, adquirindo assim uma força sobrehumana. Aquela figura que acabara de ver, devia ter caído várias vezes dentro do calderão quando bebê. Olhando-o agora era impossível imaginar que algum dia ele fora um simples e inocente bebê.

          Depois de um certo tempo parado, não sabendo se se virava e saía correndo ou se dizia algo, ele o ouve gritando alguma coisa por detrás das labaredas, com o rosto todo vermelho devido ao calor do fogão, mas não consegue entender direito e outro chef percebendo sua diculdade, lhe mostra onde teria de trabalhar, apontando dois tanques, a sua esquerda que ficavam bem na saída da cozinha. Mas só se conseguia ver parte das duas torneiras, pois os tanques ja estavam cheios de panelas, vazilhas e bandejas de todos os tipos e tamanhos espalhados pelo chão. Milhares de pratos e talheres. Ele logo troca de roupa e começa sua luta. O tanque, como pôde notar quase em todos reutaurantes Londrinos davam na altura de suas coxas. Não porque ele era alto, mas todos os tanques de cozinha tinham esta altura padrão, o que acabava com a coluna de qualquer um, por ter que obrigatoriamente se curvar para fazer o serviço. Outra peculiariadade eram as torneiras. Uma com água quente escaldante, a ponto de lhe arrancar a pele e a outra, sempre afastada lateralmente, com água gelada a dez graus negativos, ou seja era impossível trabalhar com elas separadamente, mas tinha de escolher qual preferiria, geralmente ele alternava. Começava na quente e depois ia para a fria e vice versa. (nao sabia porque em Londres água quente e fria nunca se juntavam).

          Este tipo de serviço era aquele que não acabava e muito menos diminuía. Era uma questão de matemática: 5 cozinheiros sujando tudo que encontravam pela frente e 8 guarçons trazendo pratos e talheres das mesas como se fossem esteira rolante humana e só uma pessoa para lavar (ele). Colocar  tudo no lugar de novo, que certamente eles sujariam no segundo seguinte e lhe devolveriam para ser lavado novamente, numa ciranda sem fim. Isto em período de pouco movimento. Quatro lixeiras grandes que ficavam colocadas em lugares inascessíveis da cozinha, que deveriam ser trocadas assim que enchessem (e como enchiam!!), colocando o lixo fora do restaurante, um quarteirão adiante, saindo do calor de 50 graus para um frio de 10 graus negativos na rua. Nas horas de movimento, as panelas eram literalmente chutadas pelos chefs em direção a ele. Pois não tinham tempo de levá-las sem queimar alguma coisa no fogão. Sendo que algumas panelas o  obrigava a entrar literalmente dentro delas para poder lavá-las.

          Como trabalhava 4 chefs e mais um headchef e agora ele, somaria entao 6 pessoas transitando freneticamente em um espaço super reduzido e altamente escorregadio, devido aos inevitáveis derrames de óleo no chão, o que causava tombos frequentes. (na verdade quem caía era sempre Migrantino, pois os demais usavam botas especiais que ainda não tiveram tempo de lhe entregar ). Como não havia trabalhado muito em cozinhas movimentadas como esta anteriormente, não conhecia as regras de trânsito das mesmas. Pra piorar a situação chegou em um horário de “busy” (significa: “ocupado, movimentado” em inglês, que os brasileiros aportuguesaram para bisado), não houve tempo hábil pra ensiná-lo. Consequentemente, além dos tombos no chão, trombava também com os chefs já irritados (os chef`s são sempre irritados e sem tempo). O pior aconteceu quando Migrantino entrou numa espécie de contra-mão, batendo de frente com o headchef (o Obelix), que vinha em direção contrária com uma panela cheia de água quente, causando assim um atropelamento sumário. Ainda no chão, enquanto se recuperava, ele pode lembrar do que sentiu quando fora atropelado uma certa vez por uma camionete numa movimentada avenida no Rio de Janeiro. Mas com o passar do tempo foi aprendendo que na cozinha existia uma regra para se locomover.

          Em primeiro lugar, explica o chef. Este restaurante e temático, ou seja, todo dia serve pratos típicos de um país diferente,  escolhidos semanalmente, mudando assim os respectivos chef`s. Portanto foi criado umas normas básicas de trânsito nesta cozinha. A mais importante é que existe uma rotatória imaginária bem no centro dela. Você tem de se locomover sempre no sentido horário da mesma, salvo no dia que os chef`s são ingleses. Pois aí terá de inverter a mão, passando a transitar no sentido anti-horário (os ingleses sempre tinham de ser diferentes em tudo). Esta rotatória jamais pode ser cruzada diretamente, continuava o chef. Isto é considerado falta grave. Tem de contorná-la sempre, respeitando sua direção diária e a cada vez que adentrá-la, não se esquecer nunca de gritar a palavra “BEX” ( na verdade, ele descobriria quando tivesse tempo, que a expressão certa seria : “WATCH YOUR BACK”,  que em português significava: “PRESTE ATENÇÃO ATRÁS DE VOCÊ”, mas que com o tempo simplificaram para “BACK”. Esse chef, que era um brasileiro que falava e lia , mas não escrevia e nem entendia inglês, entendeu erradamente ”BEX”. Como os outros chefs não tiveram interesse e muito menos tempo em corrigí-lo, assim ficou). Mas fale o mais alto que puder, insistia ele, para que seu colega à frente perceba sua aproximação e possa lhe dar preferência, evitando assim um acidente.

          O problema e que no horário de pico, ou bisado, para poder trocar as lixeiras que enchiam numa velocidade espantosa, ele tinha que usar a rotatória pelo menos umas 8 vezes por noite. Sua garganta chegava a arder de tanto gritar “BEX”, o mais alto que podia, pois teria que concorrer com um aparelho de som que tocava uma espécie de música que ele nunca conseguia  identificar. O volume do som era tão alto que deixaria qualquer trio elétrico  humilhado (não sabia porque, mas toda cozinha em Londres tinha um aparelho daquele). Quando finalmente, conseguia chegar em casa, ao deitar, a música ainda permanecia em sua cabeça tocando em seu ouvido o tempo suficiente até que acordasse e retornasse ao trabalho novamente, alternadas pelos seus próprios gritos: “BEX`S.” Lembra que certa vez quando estava de folga fazendo compra em um supermercado gritou “BEX” involuntariamente atras de uma senhora de branco a sua frente, por forca do hábito, o que lhe causou constragimento diante do olhar assustado da mulher.

          Bom diante destas experiencias anteriores, a idéia de ir trabalhar em uma fazenda para alimentar patos, soava bem melhor, até que um dia ele encontra Carlos casualmente que lhe fala sobre o trabalho novamente. como ele já não tinha outra opção, resolve tentar mais uma investida fora de Londres. Depois de acertar os detalhes do local pelo fone, finalmente pega um trem que sai de Vitória station até o norte da inglaterra, onde se localizava a suposta fazenda. Eram seis horas de trem, onde chegaria a uma cidade. Da estação ele pegaria um ônibus que o deixaria num certo ponto da estrada já pre combinado, de onde lhe buscariam até que finalmente chegasse no local de trabalho. Depois de uma longa viagem ele se encontra finalmente com o encarregadao dos trabalhos na fazenda, um brasileiro chamado Leo. Um homem de média estatura, que pelo tipo físico já era acostumado a trabalhos pesados. Durante a viagem que não levaria mais do que uns quarenta minutos, numa estrada pavimentada, mas bem estreita.  Ainda meio perdido, Migrantino tenta puxar a língua de Leo, que permanecia calado, depois de lhe ter feito só umas poucas perguntas. Apesar de sua insistência, Leo se limitava a só responder o nescessário, deixando-o  apreensivo quanto a verdadeira natureza de seu trabalho.

          O inverno já iniciara. A temperatura nesta época ficava quase sempre abaixo de Zero, e nos últimos anos, o clima na europa sofrera grandes modificações, tornara-se cada vez mais rigoroso, com grandes nesvascas que literalmente parava as grandes cidades. Enquanto o veículo avançava pela estrada, pela janela do veículo, ele observava aquela vegetação tipicamente européia, onde não havia grandes variedades de árvores como costumava ver nos cerrados brasileiros. No Brasil a natureza parecia mais viva e colorida. Agora ele contemplava quase que uma pintura estática, sem vida, sem cores, com o branco inconfundível da neve que cobria parcialmente toda a vegetação e parte da já estreita estrada, realçado ainda mais pelos raios de sol que com o movimento do automóvel pareciam correr entre os troncos das árvores. Migrantino lembrara da primeira vez em que havia visto neve, só tinha visto antes pelos filmes que assistia pela televisão quando no Brasil. Foi na Oxford street quando trabalhava em um café. Quase não acreditou ao perceber através da porta de vidro que dava para a rua, pequenos flocos de neve caindo sobre a calçada. Recorda de ter largado seu serviço e saído correndo como uma criança em direção à rua para ver sua primeria e inesquecível tempestade de neve, despencando do céu como se fossem pequenos pedaços de algodões gelados a lhe cair no rosto e logo se transformando em água.

          Enquanto ainda relembrava, Leo lhe interrompe os pensamentos, lhe avisando que já tinham chegado à fazenda. Era uma grande construçãao, bem antiga como tudo na inglaterra. Parecia construída no início do século passado. Se via uma grande casa central, rodeadas por pequenas construções de alojamentos para funcionários, e em anexo, vários galpões cobertos, onde provavelmente era o local que trabalharia. Logo na entrada, um grande pátio continha vários caminhões frigorificos estacionados. Mais acima se localizava uma lagoa artificial, de onde sairia a água que alimentava a fazenda, que parecia mais uma pequena indústria do que propriamente uma fazenda. Pelo menos nos padrões que ele imaginara. Logo fora apresentado a Alex, um brasileiro que até então trabalhava lá. (era incrível!! Em qualquer lugar na inglaterra,  por mais remoto e inóspito que fosse, Migrantino sempre encontrava brasileiros). Agora seriam três. Ele, Alex e Leo, o encarregado. Como era costume, assim que chegou, Leo designou Alex para acompanhá-lo e lhe mostrar onde poderia deixar seus pertences. Alex era também novato neste lugar, já que chegara também de Londres à pouco mais um mês. Portanto, como notara, ainda não estava muito a vontade e muito menos satisfeito. Até meio assustado pelo seu aspecto.

          Alex foi logo contando como era o serviço. É o seguinte: diz ele: esta e uma fazenda de um judeu que cria patos para fornecer para os hotéis e restaurantes na inglaterra. A nossa tarefa e alimentá-los, pois quando adiquirem o pêso ideal, serão abatidos, embalados e transportados por aqueles caminhões, diz ele, apontando com o dedo para o grande pátio , até o local de consumo. Mas o mais apreciado no pato não é bem sua carne. Não!! Interrompe Migrantino. Não. Responde Alex. Mas o que eles mais apreciam então? Pergunta, já curioso. É o figado, diz Alex. Fígado! Estranho! mas é táo pequeno, augumenta, inocentemente. Não desses patos, responde Alex já com uma certa dose de maldade. O fígado dessa espécie de pato chega a pesar 1 kilo quando no tempo do abate. Eles fazem patê dele para vender para hotéis na inglaterra. “Meu Deus!!”, pensa ele, se só o figado pesa 1 kilo, imagina o tamanho desse pato. E já começa a ficar preocupado, pois não era bem isso que imaginava encontrar, como em quase todos seus empregos anteriores (em Londres ele nunca encontrava o que imaginava).

          E finalmente Alex o leva ao local de Trabalho. Enquanto caminham, Alex vai lhe dando os detalhes. É o seguinte, aqui trabalha mais ou menos uns vinte e cinco homens. Todos imigrantes, como polonoses, africanos, e alguns indianos. Mas porque mais ou menos? O interrompe Migrantino. Porque quase sempre há fugas. Como assim? E verdade! Eu mesmo quando cheguei, Leo Foi logo prevendo a minha e ainda por cima disse que eu sairia sem receber. Há quanto tempo Leo trabalha aqui? Ele me disse uma vez que faz mais ou menos uns cinco anos. Então!! Se ele não fugiu porque iriamos fugir? Mas ele é diferente. Já notou os braços dele? Parecem dois troncos de árvores. Sua profissão no brasil era tirador de leite. Ordenhava manualmente cerca de cem vacas por dia e isso faz diferença no trabalho aqui.  Como ia te dizendo a respeito dos outros, cuidado com eles. São muito espertos. Como assim espertos? Já lembrando de Ana, que costumava lhe fazer advertências a respeito dos perigos de todos os tipos que sempre rondavam os locais de trabalhos. Mas pelo menos aqui não correria o risco de ser pego pela mimi, pensava ele. E Alex lhe diz que costumam jogar seus patos doentes em galpões vizinhos e suas vítimas são sempre os novatos.

          São seis mil e duzentos e cinquenta patos dividos para vinte e cinco homens, no entando, cada um tem de alimentar duzentos e cinquenta patos,  e não pode deixar nenhum morrer. Caso contrário será descontado no seu salário. Tá vendo aquele galpão? Sim, afirma ele. É o seu. Onde fica o milho? Pergunta (outra vez, inocentemente). Que milho? Os patos são alimentados com ração previamente preparada para que alcancem seus pesos o mais rápido possível. Você tem de colocar no bico deles, não pode esperar eles terem fome, pois o prazo e muito curto. E infelizmente eles nunca têm fome. Você não pode perder tempo convencendo-os, fazendo aviãozinho para persuadí-los a comer. Tem de enfiar no bico deles garganta abaixo com esta colher, e lhe entrega um instrumento que mais parecia uma pá.

          Enquanto os dois caminham em direção ao seu galpao, ele finalmente avista os patos. Começam a ser alimentados assim quando nascem e aos três meses vão chegando ao pêso ideal,  com cerca de uns 8 kilos. Num dos galpões, Migrantino vê um rapaz que parecia ser africano, cuidando de seus patos. Se é que este seria o termo adequado. Mais parecia uma luta livre do que uma sessão de alimentação. Pelo jeito era novato, pois ele e o pato estavam quase no fim do sexto assalto e o pato estava lhe dando uma surra, sobre o olhar dos outros duzentos e quarenta e nove patos que sem sombra de dúvidas apostavam no seu colega que certamente iria vencer facilmente a luta provavelmente por knoàckout. Ele olhava os dois rolando numa camada de água corrente de mais ou menos 20 centimentros de profundidade. Às vezes se tornava quase impossível perceber quem alimentava quem. Quem batia em quem já não restava a menor dúvida. O pobre homem estava todo molhado e com as roupas parcialmente rasgadas.

          Migrantino assistia a luta e engolia a sêco enquanto ia caminhando em direção ao ringue, ou seja seu galpão. Assim que chega vê aquela paisagem branca de patos quase adultos, completamente sem fome. Pareciam mais réplicas de boeings 747-300, feito de penas. Alguns abriam as asas para o intimidar. Era quase metros de envergadura de puro músculos. Os patos logo já fizeram o diagnóstico: era mais um calouro, e o encaravam enquanto ele caminhava à entrada. Sabiam muito bem através de muitas gerações, que não era nenhum negócio para eles aceitarem a comida assim sem resistência. Caso contrário, certamente seus fins seria acabarem numa embalagem plástica. Os galpões eram separados por baixas muretas de uns cinquenta centimetros de altura. De onde estava, podia ver os 24 homens com seu 6.000 patos.  A visão mais parecia um campo de batalha em estilo medieval. Um frenesi de braços e asas, mesclados com banhos de água gelada alternados por tombos.

          Migrantino pega timidamente sua colher e investe contra o primeiro pato que ingenuamente pensara, estivesse distraído. Ao alcancar uma de suas asas, assim que  consegue firmar a mão esquerda segurando-a, o pato  lhe dá um golpe com a outra asa que inexperientemente deixara livre. Numa rápida contração o arremete as uns 3 metros à frente. Os outros patos se afastam abrindo caminnho à sua queda. Pareciam saber previamente o local exato de seu tombo. Caindo ele deitado com as costas na água gelada. Ainda sem forças pra levantar, ele se lembra do coice que certa vez levara de um burro na fazenda de seu tio quando ainda era adolescente. Mas  jamais imaginara que um dia, um simples pato pudesse fazer o mesmo. Mesmo sendo um pato de primeiro mundo.

           Ainda envergonhado sobre os olhares satisfeitos da platéia, ele levanta. Seu agressor já o espera do outro lado para o próximo assalto. Sabia que não poderia jamais se intimidar. Tinha que enfrentá-lo e finalmente mostrar quem mandava alí. Mas desta vez resolveu ir com mais cautela. Começou rodeando o pato como quem não queria nada. Mas esquecera que nao estava lidando com nenhum amador. O pato era um veterano. Já estava no seus quase dois meses e meio de vida, e já houvera acumulado experiência o bastante para fazer valer sua abstinência alimentar. Portanto ia dar o melhor de si para tentar prolongar sua vida ao máximo. Ele o vai rodeando e o pato o olhando girando com a cabeça como um periscópio. O acompanhando em seus movimentos. Num ato de desespero,  Migrantino pula em cima da ave tentando agarrá-lo pelas duas asas ao mesmo tempo, pois já sabia que não podia deixar nenhuma livre. Mas o pato percebe seu golpe infantil e simplesmente se esquiva para o lado lhe deixando ir de novo à lona. Desta vez ele cai de bruços e tomando mais um banho de água fria. Levanta novamente e fica um tempo sentado na água fazendo um balanço rápido da situação. Não conseguira alimentar um só pato e tinha pela frente ainda 250 deles. Mas o que  não percebia era que Alex estava assistindo tudo. Depois de sua segunda tentativa, resolve enfim intervir, agindo como uma espécie de técnico.

          Como em todo serviço em Londres, as pessoas não costumam ensinar como fazer. Simplesmente te jogam no local de trabalho. Sem nenhum treinamento prévio, mas por um lado e até justificável. Devido a alta rotatividade de funcionários, os mais antigos já não tem mais paciência para ficar repetindo as mesmas intruções. Alex então lhe confessa que desenvolvera uma técnica para surpreender as aves. Migrantino, como já tinha quase certeza que  os animais também pensavam, depois de sua experiência com o cachorro, resolveu não arriscar deixar Alex falar perto dos patos e lhe puxou para um canto à parte, sobre os olhares curiosos das aves. “É o seguinte”… diz Alex, num tom de cochicho. Você jamais pode chegar logo no primeiro pato que se apresenta. Geralmente o que fica na linha de frente é o pato alfa. Uma espécie de líder. É lógico que ele estará preparado. O que foi seu erro inicial. E pior, você insistiu no mesmo pato. Se eu não chegasse a tempo e você fizesse mais uma investida atrapalhada, seria sua completa desmoralização. Faz o seguinte: pegue sua colher e vai andando no meio deles e quando achar seu alvo e decidir atacar… “espera um  pouco cochicha com alex”. E dá uma rápida olhada em volta, pra checar se não tem nenhum pato espião, e volta o rosto de novo para Alex, que continua: pois é, quando estiver localizado o pato da vez, sem é claro que ele perceba, vai com suas duas mãos num golpe rápido na junção frontal de suas asas e segure firme. Mas com muita força, não dê espaço para ele contraí-las e depois trave elas uma na outra. Já rendido, você abre o bico dele e enfia a ração bem no fundo da garganta. Depois e só destravar suas asas e  começar os outros 249 procedimentos novamente.

          Alex dá suas instruções e o deixa sozinho. Mas desta vez já instruído ele consegue finalmente aos poucos dominar seu bando, apesar alguns inevitáveis tombos. Consegue com muita dificuldade alimentar alguns. Mas o serviço era demasiadamente pesado, pois tinha de fazer muita força e isso repetido todos os dias a princípio parecia uma tarefa quase impossível, e pensar novamente em sua rotina que teria de seguir, ficava ainda mais desanimado. Tinha de trabalhar três horas e descansar duas sucessivamente. De quinze em quinze dias tiraria um dia de folga. Quando estes duzentos e cinquenta patos estivessem prontos para o abate, ai viriam outra turma de duzentos e cinquenta. A única vantagem era que seriam patos menores e mais inexperientes. Seria com certeza mais fácil no início, mas na metade de suas vidas já começavam a dar muito trabalho.

          Ainda tinha um agravante. Nas horas de descanso,  Migrantino não conseguia pensar em nada que não incluísse patos. Sonhava com patos, gansos, marrecos e toda as espécies similares. Às vezes acordava assustado de um pesadelo. Sonhava com as aves o perseguindo, tentando  lhe matar. Uma noite, sonhara que estava em um grande tribunal, e sendo julgado por alimentar patos forçosamente. O pior era que todos no tribunal eram patos, desde o promotor, passando pelas testemunhas, e principalmente o juiz era um grande pato branco, vestido com sua toga e com seu martelo em uma das asas batendo três vezes na mesa e o condenando a ser alimentado por patos forçosamente até que tivesse no ponto para ser finalmente abatido. Acordava assustado e todo suado.  Era rara uma noite em que náo tivesse pesadelos relacionados a patos. E para completar, nas três refeições que tinha, serviam sempre carne de pato. Enfim depois de dois meses nessa rotina, ele achava que iria enloquecer caso continuasse naquela fazenda. Numa noite, ao conversar com Alex, resolveu que ia fugir, pois se tentasse negociar sua saída, poderiam impedí-lo de ir embora e Alex acabou por segui-lo, pois também já nao aguentava aquele serviço.

          Finalmente eles se preparam numa noite anterior, deixando já tudo preparado para escaparem de madrugada. Apesar de ainda estar nevando, mesmo assim decidiram que não poderiam mais ficar. Alex que já conhecia a regiáo, sabia que um ônibus transitava naquela redondeza e poderia levá-los até a estação da pequena cidade. Sairam então e conseguiram ganhar a estrada atá que pegaram o último ônibus que o levariam à estação. Mas ao descer e caminharem em direção a mesma, notaram que estava fechada. Portando não poderiam seguir viagem e muito menos voltar. Até porque não havia mais ônibus antes do amanhecer. O frio era intenso e não poderiam de maneira alguma ficar alí parados. Correriam o risco de se congelarem e até morrer por hiportemia. Migrantino entáo encontra umas folhas de jornal e como sempre andava com um isqueiro para emergências, resolveram fazer uma fogueira para poder se aquecerem. O que não durou muito,  até aparecer uma viatura policial e os obrigaram a apagar o fogo. Na inglaterra eles tem pavor de fogo mesmo em numa nevasca. Como eram ilegais não poderiam pedir carona a polícia com medo de serem descobertos, e acabaram ficando na mesma situação anterior. Não lhe restavam outra opção, se nao cair na estrada e tentar pedir carona. O que era muito improvável que conseguissem, pois não costumam dar carona a estranhos, muito menos a dois homens.

           Aos poucos o pânico começou a tomar conta dos dois, pois sabiam que não poderiam ficar muito tempo andando na neve sem que seus pés congelassem. Caso isso acontecesse fatalmente não comseguiriam mais andar e provalvelmente morreriam congelados se não fossem socorridos à tempo. Resolveram então caminhar no meio da estrada, onde a neve estava mais batida pelo movimentos dos carros. Combinaram entre eles que se algum deles caíssem, o outro teria que continuar andando pra buscar socorro. Nestas horas parece que toda sua vida lhe passava pela mente, como se ele pudesse ver sua morte iminente. Mas resolve não pensar, apenas andar, até que avista uma luz entre as árvores bem a sua esquerda e resolve chegar até mais perto, onde para sua felicidade era um hotelzinho de beira de estrada. Os dois, mais aliviados apesar de quase congelados, perguntam ao recepcionista se há vagas e ele balança a cabeca afirmativamente e diz que a diária era 20 libras. Migrantino lhe responde: pagaria até 1000 libras. Há cinco minutos atrás pensavamos que iamos morrer congelados.

          Ja com o corpo submerso na banheira de água morna, ele da um suspiro de alívio e promete pra si mesmo, que jamais saira de Londres para se aventurar no interior novamente. No dia seguinte, já restabelecidos tomam o primeiro ônibus que os deixaram na estação, de onde seguiriam viagem para Londres. Durante a viagem ele podia lembrar ainda de Carlos ao lhe dizer do emprego na fazenda de patos e ingenuamente se imaginando sentado em um banquinho jogando milhos para os patinhos.

Sobre o Autor

Sérgio Martins




Pontuação: Não pontuado ainda


Comments

No comments posted.

Add Comment